Baleia-de-bryde: Navegando com as gigantes

Dra. Liliane Lodi

 

As baleias-de-bryde provisoriamente são consideradas como uma única espécie de acordo com a terminologia adotada pela Comissão Internacional Baleeira e União Internacional para a Conservação da Natureza. O Comitê Ad-Hoc de Taxonomia da Sociedade de Mamíferos Marinhos reconhece a existência de uma pequena forma costeira no oeste do Pacífico e Índico (baleia-de-bryde-de-eden, Balaenoptera edeni edeni) e outra forma maior distribuída globalmente em águas tropicais e temperadas quentes oceânicas (baleia-de-bryde, B. edeni brydei) enquanto alguns pesquisadores reconhecem a existência de duas espécies (B. edeni – descrita no final do século XIX e B. brydei – descrita no início do século XX). O “complexo baleia-de-bryde” têm sido referido como pouco conhecido e a confusão taxonômica persiste em nível global. Diferenças geográficas, morfológicas, osteológicas, genéticas e comportamentais foram reportadas entre as várias populações do mundo.  Pastene e colaboradores (2015) sugerem que as baleias do Peru, Chile e Brasil pertencem a espécie B. brydei em base a análises genéticas. No entanto para confirmar este resultado é necessário que sejam realizadas análises adicionais de amostras para o Brasil. O conjunto de dados atuais é limitado a apenas oito animais encalhados o qual pode não ser representativo da diversidade da população.

Figura 1 _ Liliane Lodi
Figura 1: Existem algumas características únicas que as distinguem de outros balenopterídeo. A mais notável é a presença de uma quilha central proeminente e duas quilhas laterais ou acessórias que se estendem a partir da ponta da cabeça a porção anterior do orifício respiratório.

São encontradas em águas tropicais e temperadas no norte e sul do Pacífico, Índico e Atlântico, entre 40°S e 40°N.  Em geral a distribuição varia no espaço e no tempo, com populações pelágicas tendo uma distribuição mais ampla e sazonal em relação as populações costeiras que são mais localizadas e podem ser encontradas ao longo do ano. Presumivelmente são capazes de satisfazer seus requerimentos nutricionais e reprodutivos em águas tropicais e temperadas sem a necessidade da realização de extensas migrações latitudinais.

No Brasil existem registros tanto para regiões costeiras quanto oceânicas. Ocorrências são confirmadas entre o Rio Grande do Sul e a Bahia, Paraíba e Maranhão. A região Sudeste, em especial o Rio de Janeiro (De Búzios a baía da Ilha Grande) e norte de São Paulo, concentram o maior número de registros de encalhes e avistagens.

Na cidade do Rio de Janeiro, região oceânica de Niterói e Maricá (Itaipuaçu e ilhas Maricás) as baleias-de-bryde vem sendo monitoradas pela equipe de cetáceos do Projeto Ilhas do Rio desde 2012. Sabe-se que na área de estudo avistagens em águas costeiras seguem um padrão estacional bem marcado do final da primavera ao início do outono. A primavera e verão estão associadas à sardinha-verdadeira (Sardinella brasilensis), um dos principais itens de sua dieta, que se aproxima da costa para se reproduzir.

Figura 2  _Liliane Lodi
Figura 2: Na temporada final de 2015/ início de 2016 as baleias-de-bryde são avistadas com frequência desde novembro na região oceânica de Niterói e Itaipuaçu com alguns registros na entrada da Baía de Guanabara.

As baleias-de-bryde são predadoras oportunistas e vorazes.  A seleção de presas provavelmente é determinada pela disponibilidade ao invés da preferência. Durante atividades de alimentação amostras e/ou fotografias de presas foram obtidas através de observações diretas de baleias-de-bryde alimentando-se de um cardume misto de sardinha-verdadeira e tainha (Mugilidae) ou carapicu (Gerridae), lanceta (Thyrsitops lepidopoides), manjuba (Anchoviella brevirostris) e camarão-aviú (Acetes americanus).

Os indivíduos são identificados com base no perfil de suas nadadeiras dorsais, através da presença de cortes e cicatrizes, utilizando a técnica de foto-identificação. Os cortes e cicatrizes da nadadeira dorsal têm características únicas. A comparação entre os catálogos do Rio de Janeiro e da região do Cabo Frio revelou correspondências para três indivíduos. A distância mínima e máxima entre as reavistagens foi de cerca de 121 e 149 km, respectivamente. Os intervalos entre as reavistagens indicam que as baleias-de-bryde podem permanecer na área de estudo por dias e retornar após meses ou anos, o que suporta a evidência de fidelidade de área.

Figura 3_LilianeLodi
Figura 3: Cortes e cicatrizes na nadadeira dorsal assemelham-se às nossas impressões digitais ou a um código de barras.

Avanços no conhecimento das estruturas populacionais exigem uma avaliação das ameaças potenciais em escalas local e global. Uma revisão das ameaças atuais que estão sujeitas as diferentes espécies de baleias revelaram que enredamentos em artefatos de pesca e colisões com embarcações podem ter um efeito significativo para as populações. No entanto outras ameaças (poluição, molestamento e redução da disponibilidade de presas) permanecem pouco avaliadas. Para as baleias-de-bryde as ameaças potenciais anteriormente mencionadas são difíceis de quantificar, pois pouco se sabe sobre a espécie e suas populações regionais.

Dois relatos de molestamento seguidos por colisão entre pequenos barcos e um par fêmea/filhote, avistagens na entrada da baía de Guanabara, zona com intenso tráfego de embarcações e navios e a frequente ocorrência de redes de espera em Copacabana, na região oceânica de Niterói e em Itaipuaçu indicam que um programa educacional de conscientização pública deve ser desenvolvido com foco voltado à conservação das baleias-de-bryde em águas ao largo do Rio de Janeiro.

Perguntas importantes permanecem indecifráveis: De onde elas vêm? Pra onde elas vão? Realizam deslocamentos costa/oceano em diferentes épocas do ano seguindo a disponibilidade de presas? Existem no Brasil diferentes populações oceânicas e costeiras? A obtenção dessas respostas é essencial para a determinação dos estoques objetivando a proposição de medidas de manejo e conservação da espécie.

Sugestões para leitura:

Figueiredo, L.D.; Tardin, R.H.; Lodi, L.; Maciel, I.S.; Alves, M.A.S. & Simão, S.M. (2014).  Site fidelity of bryde’s whales (Balaenoptera edeni) in Cabo Frio region, southeastern Brazil, through photoidentification technique. Brazilian Journal of Aquatic Science and Technology, 18(2):59-64.

 

Lodi, L.; Tardin, R.H.; Hetzel, B.; Maciel, I.S.; Figueiredo, L.D & Simão, S. M. (2015). Bryde´s whale (Cetartiodactyla: Balaenopteridae) occurrence and movements in coastal areas of southeastern Brazil. Zoologia, 32 (2): 171–175.

 

Pastene, L.A.; Acevedo, J.; Siciliano, S. Sholl, T.C.G.; Moura, J.F.; Ott, P. H; Aguayo-Lobo, A. (2015). Population genetic structure of the South American Bryde’s whale. Revista de Biología Marina y Oceanografía, 50 (3): 453-464.

 

Sobre a autora

Liliane Lodi

Doutora em Biologia Marinha pela Universidade Federal Fluminense e coordenadora da equipe de cetáceos do Projeto Ilhas do Rio/Instituto Mar Adentro. A área de atuação compreende a ecologia de cetáceos.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Movimento Pró-restinga disse:

    O INEA aprovou a implantação do emissário-duto de rejeitos petroquímicos do Comperj , que desembocará há dois km das ilhas Maricás. A mancha de poluição petroquímica atingirá pelo menos o litoral de Maricá, Niterói e até mesmo Saquarema. Os cetáceos estão bastante ameaçados, pois são locais importantes para os cetáceos.

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