Movimento ciência cidadã: Participação responsável, esclarecida e voluntária

Dra. Liliane Lodi

A ciência cidadã um tipo de ciência que evolve a participação voluntária do público em geral, está se tornando em todo o mundo uma importante ferramenta para agregar informações sobre temas alvo de diversos estudos. Voluntários não analisam os dados ou escrevem artigos científicos, mas sua colaboração tem o potencial para estender a investigação e contribuir com a obtenção de informações valiosas.

Alguns pesquisadores acreditam que os dados obtidos pelos voluntários não tenham qualidade e que não deve-se levar em conta opiniões de pessoas que não tenham conhecimento acadêmico sobre determinado assunto. No entanto, projetos sérios de ciência cidadã tem sempre as informações provenientes de colaborações examinadas, filtradas e reavaliadas.

A contribuição de voluntários não-especialistas no recolhimento de dados sobre o padrão de distribuição espacial das baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) em Jervis Bay, Austrália, obteve considerações importantes para a conservação.  Para levar em conta a incerteza associada aos dados recolhidos foi necessário considerar o potencial para: 1) erro de localização da avistagem, 2) erro intencional do observador e 3) o viés da amostragem espacial, sendo, portanto fundamental a aplicação de princípios conservadores. Os resultados alcançados indicam que existe uma marcada diferença de uso de área entre grupos contendo e não contendo filhotes.  A preferência de pares fêmea/filhote por águas mais rasas da baía aumenta potencialmente sua vulnerabilidade às perturbações antrópicas através de uma maior exposição ao turismo, a pesca e as atividades navais. Consequentemente esses resultados devem ser incorporados em planos de zoneamento de áreas marinhas protegidas.

As baleias e golfinhos são animais com alta mobilidade. Tipicamente se deslocam por extensas áreas e o seu ciclo vital ocorre inteiramente no mar, especialmente abaixo da superfície da água. Esses fatores e as dificuldades inerentes para a coleta de dados em campo explicam porque a distribuição geográfica desses animais ainda é pouco conhecida, quando comparada, por exemplo, com os mamíferos terrestres.

O grupo da comunidade virtual FaceBook denominado “Onde estão as Baleias e os Golfinhos?” é um convite para a sociedade colaborar com a pesquisa científica. Tem como principais objetivos 1) mobilizar e envolver a sociedade na investigação participativa, 2) recrutar voluntários para comunicarem os registros de avistagens de baleias e golfinhos em águas costeiras da cidade do Rio de Janeiro e 3) Elaborar o mapeamento da biodiversidade e distribuição de cetáceos na cidade do Rio de Janeiro.

Figura 1
Figura 1: Criado em outubro de 2013, o grupo conta com mais de 4.050 membros de diversas cidades do Brasil, Argentina e Portugal. Funciona como uma rede para troca de informações entre pesquisadores e a sociedade sobre ocorrência dos cetáceos em águas cariocas.

 

A aceitação e adoção da ciência cidadã em estudos de distribuição de espécies requer a validação de dados adequados. Apenas registros de avistagens oportunistas contendo fotografias e/ou filmagens, data e local aproximado são utilizados após uma análise minuciosa das imagens para a confirmação da espécie. A limitação desta plataforma de levantamento necessita ser considerada no contexto de não introduzir dados tendenciosos.

O grupo recebe dos colaboradores informações relevantes sobre a ocorrência de cetáceos o que contribui para uma melhor compreensão sobre a distribuição e os movimentos das espécies. Devido à carência de levantamentos de longo prazo e as restrições logísticas e financeiras das pesquisas o grupo tem cumprido com os objetivos propostos combinando as informações reportadas pelos voluntários e as advindas dos esforços das investigações de campo.

Figura 2
Figura 2: Entre novembro de 2015 e março de 2016 informações compartilhadas sobre registros confirmados de ocorrência de baleias-de-bryde na região oceânica de Niterói e no município de Maricá orientaram a escolha a escolha das rotas durante as saídas de campo.

Mesmo quando não existem registros de avistagens de cetáceos, diariamente são feitas postagens no mural do grupo (pelos administradores e membros) sobre biologia, ecologia, ameaças, saúde, bem-estar e conservação das baleias e golfinhos, questões ligadas diretamente aos ecossistemas marinhos e seus serviços, cursos, congressos, vagas para estágios, artigos e livros, dentre outras informações. Desta forma criou-se mais um canal com um ambiente favorável para a popularização da ciência através da divulgação de informações de qualidade de um modo claro e fácil.

Junte-se a nós! Todos podem participar!

 

Sugestões para leitura:

Bruce, E., Lindsey, A., Sheehan, S. & Blewitt, M. 2014. Distribution patterns of migrating humpback whales (Megaptera novaeangliae) in Jervis Bay, Australia: A spatial analisa using geographical citizen science data. Applied Geography. 54: 83-95.

Soares, M.D. & Santos, R.D.C. 2011. O envolvimento popular em atividades científicas. CiênciaHoje. 47: 38-43.

 

 

Sobre a autora

Liliane Lodi

Doutora em Biologia Marinha pela Universidade Federal Fluminense e coordenadora da equipe de cetáceos do Projeto Ilhas do Rio/Instituto Mar Adentro. A área de atuação compreende a ecologia de cetáceos.

 

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